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2 de abril de 2017

Coluna do Samurai: As melhores partidas dos meus adversários

por cesarumetsubo

Aos 13 anos de idade meus pais me deram a oportunidade de treinar com o MI Jefferson Pelikian (Obrigado papai e mamãe). Logo nas primeiras aulas, ele me ensinou algo que eu compartilho com você, caro leitor:

Os livros “Minhas Melhores Partidas”, escritos por um campeão mundial, com suas próprias análises, são todos bons.

 

Li alguns. Percebi que eles raramente colocam as próprias derrotas. Então as derrotas não são as melhores partidas?

Sobre as derrotas, cito outro ensinamento. Desta vez, de algo que li em Lições Elementares de Xadrez, de Capablanca.

lex

“(…) Os que desejam adiantar, devem sempre estar dispostos a jogar e a perder. Em geral, aprende-se mais nos jogos que se perdem do que nos jogos que se ganham.”

Desejo analisar contigo minhas derrotas. Vejo muitas vantagens nisso.

  1. Posso lhe contar detalhadamente como foi o raciocínio “lógico” do mestre perdedor. Quando eu analiso uma partida de outra pessoa, não tenho certeza do que o mestre pensou;
  2. Eu me sinto muito a vontade de criticar meus próprios erros;
  3. Talvez isso incentive meus adversários a me vencerem, pois a chance da partida ser publicada é grande… ok, isso não é tão vantajoso pra mim.

Pensei no título “Minhas Melhores Derrotas”, mas gostei mais de “ As Melhores Partidas dos Meus Adversários”!

mats-um

Um dos meus mais frequentes algozes.

Partida 1

Umetsubo, César Hidemitsu (2391) – Starke, Bruno Orlando (2164)

Taça Florianópolis, 26 de março de 2017.

  1. e4 c5 2.Cf3 e6 3.c3

Defesa Siciliana, Variante Alapin. O branco deseja jogar d2–d4 e recapturar com peão, para ficar com forte centro. O problema da Alapin é que seu desenvolvimento é um pouco lento e o peão em c3 tira a opção de desenvolver o cavalo ativamente por c3.

Grandes nomes da variante são Sveshnikov e Tiviakov.

3…Cf6

Aproveita que o branco não tem o lance natural Cb1–c3 que defenderia e4.

3…d5 é outra ótima opção. 4.exd5 Dxd5 novamente o branco não tem Cb1–c3, que ganharia tempo sobre a dama.

4.e5 Cd5 5.d4 cxd4 6.cxd4 d6 7.Bc4 Cb6

Eu não gosto muito deste lance. O cavalo estava melhor em d5 e eu não pretendia capturar o cavalo.

Prefiro 7…Cc6 8.0–0 Be7 9.De2 0–0 e o preto está indo bem. Precisa agora desenvolver o bispo de c8. Seguir com Bc8-d7 e Ta8-c8 parece bom.

8.Bd3 Be7

O preto pode tentar caçar o bispo de casas brancas com 8…Cc6 9.0–0 Cb4, mas gastar muitos tempos com uma única peça pode conceder ao branco uma vantagem dinâmica. 10.Bg5 Be7 11.Bxe7 Dxe7. A troca dos bispos de casas pretas enfraquece a casa d6. 12.Cc3! Cxd3 13.Dxd3 0–0 14.Ce4. Aqui o branco mantém a iniciativa. Provavelmente o preto terá que criar fraquezas para se defender. O bispo preto não é melhor que nenhum cavalo branco.

9.0–0 dxe5 10.dxe5 Bd7 11.De2 Cc6

A ordem jogada por Bruno permite uma disposição de peças diferente: 11…Bc6 12.Cc3 C8d7. A ideia é inverter o bispo para c6 e o cavalo para d7. Assim o bispo fica mais ativo, mas mais vulnerável. Eu pretendia pegá-lo com 13.Td1 (13.Cd4 é impreciso por 13…Cc5! 14.Cxc6 Dxd3) 13…0–0 14.Cd4 e o branco deve ter vantagem pela posse do par de bispos.

12.Td1 Cb4 13.Be4 C4d5 14.Bd2

14.Cc3? Cxc3 15.bxc3 isola o peão de c3 a toa.

14…0–0

Eu não sei porque ele adiou tanto o roque, mas em nenhum momento vi alguma forma de aproveitar o rei centralizado.

15.Cc3 Bc6 [oferta de empate.]

d1

Pare e Pense!

Qual é o plano do preto?

Como o branco deve prosseguir?

Os problemas do preto são:

– algumas peças menores estão se obstruindo;

– a dama está mal colocada.

O plano de Bruno Starke tem algumas etapas:

  • trocar 2 pares de peças leves e deixar uma peça leve em d5;
  • passar a dama para a casa ativa b6;
  • centralizar as torres em c8 e d8.

16.Cb5

Minha intenção é conquistar ao menos a vantagem do par de bispos com Cb5–d4. O lance também evita a troca excessiva de peças menores via Cd5xc3.

16.Cd4? Cxc3 17.Bxc3 Bxe4 18.Dxe4 Cd5 A troca de dois pares de peças alivia a situação do preto. Aqui já igualou e o branco ainda ficou com um bispo fraco.

16.Tac1 Tc8 17.Cb5 talvez seja uma melhora em comparando com a partida, pois com as torres puxadas para “c” , tenho uma ameaça em a7 a mais.

16.Cxd5!? está num bom caminho! Tenta transformar a vantagem temporária numa vantagem de longo prazo.

  1. a) 16…Bxd5 17.Ba5 cravando o preto mais ainda. O preto se lamenta pelo atraso em tirar a dama da coluna aberta;
  2. b) ..exd5 17.Bc2 Tc8 18.Dd3 g6 19.Cd4;
  3. c) 16…Cxd5 17.Cd4 Db6 18.Cxc6 bxc6 transformando a vantagem dinâmica, do desenvolvimento, numa vantagem estática, que é o par de bispos e o peão isolado c

16…Cd7N

16…Bxb5 17.Dxb5 De8 18.Dd3. Branco com clara vantagem. Espinosa Flores – Perez Avendano, México 2008.;

16…Ca4 seria uma boa tentativa de manter o bispo de casas brancas. 17.b3 Cc5 18.Bc2 b6 ganhando uma fuga em b7. 19.Cbd4 Bb7 20.b4 Cd7 21.a3. O branco ainda parece algo melhor, por ter mais espaço. Eu penso em trocar os bispos de casas brancas e usar as fraquezas em casas brancas na ala da dama.

17.Cbd4 Db6 18.Cxc6 bxc6

Esta captura pode parecer ruim por isolar o peão, mas é a boa captura! Para que o cavalo seja páreo a um bispo ativo, ele precisa de uma boa base de operações. Uma casa na qual o cavalo fique ativo e difícil de ser removido. A casa d5 é boa, mas com pouca defesa. Com a captura de peão, a base de operações d5 fica mais resistente.

18…Dxc6 seria pior. Além de ter conquistado o par de bispos, eu conseguiria ativar as peças muito rápido com 19.Tac1 Db6 20.Be3! mantendo a iniciativa. O preto não pode capturar 20…Cxe3?? por 21.Txd7.

19.b3

Resolvendo a pressão sobre a coluna b.

19.b4!? Impedindo Cd7–c5. Eu nem considerei este lance! Não considerá-lo é um erro. Talvez eu esteja com a mente conservadora demais. 19…Tab8

  1. a) Se 19…Cxb4 20.Bxb4 Bxb4 21.Txd7+–;
  2. b) 19…Bxb4 20.Tab1 a5 21.a3+–;
  3. c) 19…c5 20.Dd3 h6 21.Bxd5 exd5 22.Dxd5 com peão a mais.

20.a3 deixando o preto com menos contrajogo que na partida.

19…a5

Com ideia de a5-a4, ativando a torre de a8 e enfraquecendo b3.

19…Cc5 Poderia incomodar um pouco, mas eu acho que mantinha um pouco o controle. 20.Bc2 Db5 (20…Cb4 21.Bxb4 Dxb4 22.Td4) 21.Rf1 Tfd8 22.Cd4 Dxe2+ 23.Rxe2.

d2

Pare e Pense!

Bruno jogou a5.

O que você faria de brancas?

20.Bc2?

Defendendo a5–a4. Muito passivo. Meu lance obstrui a coluna “c”. Perco opções de jogar pela coluna pressionando o peão isolado “c” preto.

Queria jogar o natural 20.Tac1. Não o fiz por me preocupar com 20…a4 (20…Tfc8 21.Tc4 A torre serve para pressionar c6, defender a5–a4 e passar para a outra ala e atacar o rei preto.) mas novamente nem considerei 21.b4!

Fui atingido pelo golpe fantasma de Starke! Uma ameaça que nem existia, mas que foi o suficiente para me atrapalhar.

20…Tfc8 21.Bg5

Meu plano era enfraquecer as casas pretas e trocar os bispos de casas pretas com 21.De4 g6 22.Bg5 mas 22…Bb4! me incomodava muito. 23.Dh4 Bc3 24.Tac1 Cxe5.

21…Bc5

21…Bxg5 também era possível. 22.Cxg5 (O truque 22.Bxh7+? não funciona 22…Rxh7 23.Cxg5+ Rg8 24.Dh5 Cxe5 25.Dh7+ Rf8 e o preto tem peça limpa a mais.) 22…h6 23.Ce4 com equilíbrio.

22.Bh4 Cf8 23.Cg5?

Eu precisava defender Cd5-c3 com 23. Dc4 com equilíbrio.

23…h6!

Somente depois do lance dele, me dei conta que meu Ce4 deixará meu peão e5 desprotegido.

Existe um ditado no xadrez que diz: um erro grosseiro geralmente vem seguido de outro. Creio que isso acontece porque a mente já está num estado “bobo”, propenso a cometer erros. Diversos fatores podem deixá-lo neste estado. Por exemplo: cansaço, stress, desconcentração.

Se você perceber que está “bobo”, e tiver tempo, recomendo que gaste uns 3 minutos para tomar uma água, respirar, se recuperar e concentrar-se novamente, antes de fazer o proximo lance.

Aqui, meu amigo Molina diria que eu me cansei e que estou zonzo. Ele quer dizer que estou naquele estado “bobo”.

tsubooo

Se 23…Cc3? 24.Df3 Cxd1 25.Bxh7+ Cxh7 26.Dxf7+ Rh8 27.Dh5 ganhando.

24.Ce4

24.Cf3? não preta por 24…Cc3 ganhando a qualidade.

24…Bd4 25.Cd6?

Aqui já estou pessimista, penso que tenho alguma complicação a assustar e ofereci empate. Mas não sabia que estava tão mal.

d3

Pare e pense!

Preto joga e ganha. 

25…Bxa1!

De novo, só depois do lance dele, percebo que perdi mais material.

Tenho até vergonha de mostrar a tentativa de enrolação que residia em meu coração: 25…Tc7 26.Cc4 Dc5 27.Tac1 Cc3 28.Dg4 Cxd1 29.Bf6 e tudo isso é uma besteirinha. O preto deve ter muitas defesas, principalmente com 29…Cg6 30.Bxg6 fxg6 o que abre a horizontal para a torre de c7 defender g7.

26.Df3

Meus próximos lances não acrescentam muito aprendizado ao leitor e não os analisarei. Eles foram feitos com os seguintes ingredientes:

– apuro no tempo;

– tentativa de induzir o erro adversário;

– um pouco de esperança.

O golpe que eu vi tarde demais é: 26.Cxc8 Txc8 27.Txa1 Dd4! ganhando um bispo limpo. Aqui eu não via nem chance de enrolação.

26…Tc7 27.Dg3 Bd4 28.Cc4 Da7 29.Dg4 c5 30.Txd4 cxd4 31.Bf6 g6 32.Dh4 Cxf6 33.exf6 Ch7 34.g4 Txc4! 35.bxc4 d3 36.Dxh6 Cxf6 37.Bxd3 Dd4

Secou-se minha última gota de esperança e abandonei.

stark

MN Bruno Starke, Campeão da 34ª Taça Florianópolis 2017

0–1

A análise das próprias partidas é uma das tarefas mais importantes do jogador que deseja evoluir. Mas não é uma tarefa fácil.

Primeira etapa: Reconhecer que comete erros e que precisa evoluir.

Segunda etapa: Ao reproduzir as próprias partidas, o jogador deve investigar e detectar os próprios erros. Recomendo que faça anotações, descrevendo como se preparou, se comportou, pensou, sentiu e conduziu a partida. Repare que fatores de fora do tabuleiro são importantes e nunca estão nos PGN’s das partidas. Em minha opinião, o uso de computadores só deve ser usado após um extenso trabalho individual.

Terceira etapa: Listar os erros. Os erros mais comuns podem não ser os mais urgentes! Por exemplo. Eu cometo erros posicionais com frequência, mas em toda partida eu tomo mate em um. É claro que é prioridade resolver meu cálculo de curto alcance. Melhorar o jogo posicional fica em segundo plano.

Quarta etapa: Buscar uma solução. O que você precisa estudar/treinar? Que forma de pensar deve-se aprimorar? Qual comportamento deve ser banido?

Parece um pouco trivial fazer essa tarefa para evoluir, mas é incrivelmente raro o jogador que o faz. Um treinador pode te ajudar muito nessa tarefa, principalmente na quarta etapa.

Tarefa: Analise suas partidas!

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