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24 de setembro de 2015

VINHO DE MOÇA (Crônica)

por marcelopomar

Crônica de Camila Evaristo.

para enxadristas, palavra sem distinção de gênero, cor, classe, credo, orientação sexual ou primaveras vividas.

Recordei-me de uma cena há tempos vivida. Caminhava com a minha avó na rua e passamos por uma senhora, ela e minha avó se cumprimentam. “A vó conhece ela?” – sempre me dirigi à minha avó na terceira pessoa, “não” – responde ela sorrindo. Minha mente infantil pensou “os velhos se cumprimentam sem se conhecerem”, resquícios de um universo rural e comunitário que vorazmente vem se desmanchando no ar. As lembranças vieram porque casualmente havia me encontrado com um enxadrista na biblioteca municipal, e, sem nos conhecermos, nos entregamos a uma batalha no tabuleiro. Narrei à jovem Vitória, também amante de xadrez, o enredo.

– Nós empatamos – eu disse.

– Jogo de moça! – sorriu Vitória.

Aquele comentário inocente me fez pensar. Vitória podia ter sido inocente ao dizê-lo, mas aquela simples expressão não era nada inocente, estava carregada, dizia que moças não podiam ser combativas. É evidente que não era um elogio. “Moça” era a palavra da expressão que dizia que não era um elogio. Sem perceber, Vitória estava reproduzindo aquilo que sempre esperaram de nós, a cegueira diante de nossas potencialidades – percebida e internalizada em nossa falta de representatividade na elite do esporte – que por tantas vezes reproduzi e ainda reproduzo em atos falhos (nem sempre em atos falhos), que por tantas vezes fez eu me sentir incapaz e que me fez adotar como estratégia dizer que preferia vinho seco ao suave, como se vinho suave fosse “vinho de moça” e associar-me às moças (mesmo sendo uma!) era associar-me à fragilidade. Estratégia falha: ser moça ou rapaz não define preferência de vinho; escolher vinho suave não significa fragilidade; ser moça não é defeito.

– Vitória, você não joga um “jogo de moça”. Não é mesmo?

– Jogo de moça?

Vitória não era dada a empates. No estilo de jogo de Vitória refletia a sua personalidade. A arte da guerra na prática. Obstinada, sempre joga pra vencer. E, além de tudo, é capricorniana!

– É, o que você definiu como “jogo de moça”. Você não joga assim.

Devagar, Vitória abaixou a cabeça, com um sorriso tímido no rosto.

– Não.

– E você é uma moça?

Vitória apenas balançou a cabeça para concordar.


Camila Evaristo,
enxadrista brasileira, mestranda em História pela PUC-SP
setembro, 2015

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