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1 de maio de 2015

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Provocativo ou apenas estúpido?

por danielmariani

Em recente artigo para a New in Chess o GM Nigel Short discorreu sobre as diferenças entre homens e mulheres no xadrez. Segundo o ex-candidato ao título mundial, “os cérebros de homens e mulheres são diferentes” e devemos “parar de choradeira e aceitar isso como um fato”. Será?

Nigel Short não foi o primeiro

De quando em quando grandes jogadores demonstram quão estreita é sua percepção da realidade – especialmente no que toca à sociedade e política. Um tema recorrente neste sentido é a diferença de habilidade entre homens e mulheres no xadrez: de Fischer a Kasparov, muitos deram sua lamentável (des)contribuição.

São todas fracas, as mulheres. São estúpidas quando comparadas aos homens. Não deveriam jogar xadrez. São como iniciantes, perdem todas as partidas contra os homens. Não há mulher no mundo que eu não possa vencer dando um cavalo de vantagem.
– Bobby Fischer

MenchikGraf

Vera Menchik e Sonja Graf

Não é de se admirar que Fischer, completamente obcecado por xadrez e alheio à realidade mundana, encarasse a questão de forma tão rasa e, mesmo, ignorante. Afinal, nos anos 20 já jogava entre os melhores do mundo a primeira campeã mundial, Vera Menchik.

Essa estreiteza não foi inaugurada por Fischer. Em 1929, no torneio internacional de Carlsbad, um certo Albert Becker teria se indignado com a participação de Menchik e afirmado que nenhum homem deveria perder – aqueles que perdessem fariam parte do “Clube da Vera Menchik”. O próprio Becker foi o primeiro membro do clube – que eventualmente incluiu os nomes de Euwe, Reshevsky, Saemisch…

Fischer viveu para ver a húngara Judit Polgar superar em 1991, aos 15 anos e 4 meses, seu recorde por se tornar o grande mestre mais jovem da história. Contudo não foi o último a tentar, do alto do seu senso comum, naturalizar a superioridade masculina no xadrez.

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Uma jovem Judit Polgar em exibição de simultâneas

 O artigo de Short

A diferença entre os sexos é notável no xadrez mas, no meu ponto de vista, não mais que em qualquer outra atividade cultural. Mulheres não conseguem jogar xadrez como não conseguem pintar, escrever ou filosofar. De fato as mulheres nunca pensaram ou fizeram nada que merecesse consideração.
– Jan Hein Donner

Essa citação abre o brilhante sóquenão artigo de Short, intitulado “Vive la difference“, que questiona dois parágrafos mais tarde se Donner não teria razão. Através de clichês baratos (como aquele sobre mulheres e direção) e chocante senso comum, o britânico tenta provar que a hegemonia masculina no xadrez é devida a diferenças fisiológicas que acarretariam inteligências diferentes.

“Não adianta falar da recém aposentada Judit Polgar como prova de que as mulheres são tão boas quanto os homens pois a brilhante húngara é claramente um caso à parte. Seria tão equivocado quanto afirmar que Viktor Korchnoi (antes do derrame) seria uma prova de que os velhos não são mais fracos que os jovens.”

Ao final Nigel revela, para não haver dúvidas, o que está implícito ao longo do artigo:

“Os cérebros de homens e mulheres são fisicamente diferentes, então por que esperar que funcionem da mesma forma? Não tenho o menor problema em admitir que minha mulher possui muito mais inteligência emocional que eu. Da mesma forma ela não se constrange em pedir pra eu manobrar o carro numa garagem apertada. Nenhum é melhor que o outro, só temos habilidades diferentes.”

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Nigel Short provando que grandes enxadristas também podem ser grandes boçais

Após repercutir em jornais internacionais e mídias sociais pelo teor sexista de seu artigo, via twitter Nigel se disse incompreendido e que “jamais disse que as mulheres tem cérebros inferiores”.

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Claro, o que disse foi apenas que a causa da desigualdade no xadrez, em favor dos homens, é a diferença entre os cérebros… um “fato biológico”! A tentativa de negar o óbvio é traída por seu discurso.

Judit Polgar rebateu o artigo de Short: “Homens e mulheres são diferentes mas há diferentes maneiras de pensar e lutar que atingem os mesmos resultados”

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O pensamento de Short oferece uma perspectiva similar à dos anacrônicos acadêmicos eugenistas que supõem a inferioridade do QI dos negros. Ao longo do artigo, profundo como uma poça d’água, Nigel ainda chama a atenção para o fato de que prêmios extras são distribuídos às mulheres – o que seria uma discriminação, ainda que positiva – e indaga a respeito da sua legalidade (!!).

É emblemática a passagem em que Nigel comenta a tese submetida à Royal Society (academia científica britânica) sobre a diferença de força entre homens e mulheres estar relacionada à baixa participação feminina em torneios.

“Só mesmo um punhado de acadêmicos para levantar uma conclusão absurda que cai por terra diante da observação, bom senso e enorme evidência empírica.”

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A família Polgar, que não acredita em gênios que nascem prontos, produziu três grandes enxadristas

Nigel deixa para os leitores a tarefa de encontrar a tal “enorme evidência empírica”.

Talvez os pesquisadores britânicos tenham falhado em perceber que a baixa participação feminina em torneios pode ocorrer em função do papel de gênero atribuído a homens e mulheres em uma sociedade patriarcal – pregado diariamente através da publicidade, dos filmes, do espetáculo do mundo moderno.

O grande mestre ignora os inúmeros estudos que revelam que homens recebem maior estímulo para serem competitivos na infância e se destacar nos esportes – o que explica por que é mais comum meninas superarem os meninos até os 10 anos de idade, fenômeno citado no próprio artigo. Um olhar mais sutil revela que a diferença entre homens e mulheres no xadrez não é fisiológica e sim social. Como muitos outros, Nigel é incapaz de atravessar a barreira individual e considerar os efeitos causados pela coletividade sobre a construção da personalidade.

O que leva um Grande Mestre em xadrez, supostamente inteligente e culto, a se posicionar dessa maneira? Pode ser que a inteligência utilizada para jogar xadrez não ajude muito na hora de compreender a sociedade ou que os privilegiados costumam relutar em reconhecer seus privilégios. Ou ambos. Ou ainda pode ser que seu histórico contra Judit Polgar (12 a 3 para a húngara e 5 empates) simplesmente tenha deixado marcas severas, jamais resolvidas, em um afetado Nigel Short.

No Brasil

© Arman Karakhayan

Hou Yifan, campeã mundial

Salvo esforços isolados, o xadrez brasileiro ainda carece de políticas públicas que abordem a modalidade de forma ampla como ocorre na China, país da campeã mundial Hou Yifan. O projeto de desenvolvimento do xadrez foi elaborado em 1975 com o objetivo de elevar o país aos melhores do mundo em 2010 (os chineses venceram as olimpíadas pela primeira vez em 2014).

Ainda assim, apesar da má vontade de uma porção de técnicos e dirigentes em apoiar o xadrez feminino, felizmente podemos destacar a ascenção de inúmeras jovens talentosas lideradas por Vanessa Feliciano e Juliana Terao. Em dois exemplos recentes, Camila de Souza venceu um aberto em Fortaleza e Julia Alboredo dividiu a primeira colocação no IRT Consciência do Xadrez.

julia

A passos lentos, porém firmes, o xadrez feminino avança.

Há muitas diferenças fisiológicas entre homens e mulheres, mas jogar xadrez não é como correr 100 metros. O xadrez é um jogo de raciocínio e técnica, mas também de disciplina, concentração e controle emocional – atributos universais, equilibrados entre homens e mulheres. O xadrez é uma luta cheia de recursos onde diferentes estratégias podem atingir resultados semelhantes. Acima de qualquer dúvida, o xadrez é muito mais profundo que a mentalidade de certos enxadristas.

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3 Comentários Comente
  1. maio 14 2015

    Excelente artigo, nobre Daniel! Bem escrito, muito claro, linha de raciocínio impecável. Não tem como você traduzir e mandar uma cópia para o Nigel? rsrsrsrs…
    Abraços,
    L. Cesar Niehues – enxadrista(capivara) em Itajaí – SC

    Responder
  2. juliano
    jun 16 2015

    Concordo com meu amigo de longa data Cesar…excelente artigo Daniel!!!!

    Responder
  3. fabio
    jun 26 2015

    Quando comentaram em um artigo no chess.com o artigo no Short, claramente defendendo-o, dizendo que Judit Polgar era uma exceção, houve uma enxurrada de comentários apoiando o enxadrista. Fiquei decepcionado com o jogadores de xadrez naquele momento. Mas este excelente artigo renovou minhas esperanças de que enxadristas não precisam ser estúpidos. Obrigado!
    Segunda coisa, o que o imbecil do Short não sabe, ou não quer lembrar é que Polgar já venceu Anand, Carlsen e o até o Kasparov, coisa de que ele na minha opinião jamais seria capaz.

    Responder

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