Pular para o conteúdo

7 de outubro de 2014

Entrevista com o GM Vladimir Chuchelov

por danielmariani
A disputa pelo campeonato mundial, entre Carlsen e Anand, será realizada em novembro, mas os holofotes do xadrez continuam voltados para Fabiano Caruana. Seus recentes sucessos – particularmente na Sinquefield Cup, onde chegou a fazer 7 em 7! – fizeram dele o maior desafiante moral ao campeão mundial. Alisa Melekhina, para o ChessBase, conversou com seu treinador, o GM russo Vladimir Chuchelov.

O grande mestre Vladimir Chuchelov nasceu em Moscou, Rússia, em 1969. Seu primeiro treinador foi grande moscovita Victor Cherniy – que celebrou seu 70º aniversário saltando de para-quedas. Uma vez envolvido com xadrez, seu treinador permanente se tornou Abram Khasin (abaixo). Sua carreira como treinador começou em 2002. Ele foi convidado por Jeroen Piket, um dos melhores jogadores holandeses, para uma sessão antes do torneio de Wijk Aan Zee. Chuchelov tem sido assistente de vários jogadores neste torneio por 13 anos consecutivos.

Vladimir Chuchelov

Gm Vladimir Chuchelov

No ano seguinte, Chuchelov foi convidado por outro forte jogador holandês, Leok Van Wely, para ajudar com as preparações para o torneio de Wijk Aan Zee 2003. Para Loek era um torneio já tradicionalmente difícil, mas as cinco semanas de preparação prévia ao torneio foram recompensadas. Van Wely esteve na liderança da competição desde o início e, apesar das infelizes derrotas contra Karpov e Kramnik nas últimas rodadas, terminou com score positivo (ele esteve +3 em determinado momento). Na época o próprio Chuchelov competia. “Por certo não estava entre os mais fortes, mas era um digno grande mestre do 100”. No entanto, ele percebeu que o imenso trabalho dedicado as sessões de treinamento com seus alunos podia ser reconhecido imediatamente. “A parte analítica do xadrez era mais interessante do que jogar”.

SONY DSC

Caruana (pretas) enfrenta Maxime Vachier-Lagrave

A Federação Holandesa notou o sucesso das sessões de treinamento e pediu a ele que trabalhasse com juvenis. A demanda cresceu e em 2008 ele se tornou técnico principal da Federação Holandesa. Chuchelov logo percebeu que “ser um GM não era suficiente. Eu tinha que constantemente rever meus materiais de treinamento”. Meu objetivo era projetar o xadrez do mais alto nível para oferece-lo aos estudantes desde os fundamentos. Ajudou o fato de ter trabalhado nas duas esferas simultaneamente. Alisa Melekhina: Você considerou aplicar seus métodos para melhorar o seu próprio nível? Vladimir Chuchelov: Infelizmente já era tarde demais. Percebi que não era um verdadeiro jogador profissional. Ser “profissional” demandava uma postura totalmente diferente em relação ao treinamento. Eu tinha uma vaga ideia a respeito na época. AM: Qual o seu método para melhorar o xadrez dos alunos? Sempre começa com um curso de 60 horas chamado “balanço estratégico”. Todos os meus alunos o conhecem. Então começamos uma rotina de trabalho que envolve analisar partidas, trabalhar o repertório de aberturas e fazer sessões de cálculo. Voce tem que ser focado, motivado e com vontade de trabalhar duro. Aprender a trabalhar com eficiência é a prioridade. Não há fórmula para o sucesso – varia com cada jogador. Todos tem fraquezas diferentes pra sintonizar. AM: Por “foco” você quer dizer estudar apenas xadrez? Não necessariamente, mas quando estudar, se concentrar apenas nisso. Não pode ser meio a meio. Só assim existe eficiência. AM: Como você começou a trabalhar com Fabiano Caruana?

chuchelov gir

Anish Giri também recebe assistência de Chuchelov

Encontrei o pai do Fabiano (Lou Caruana) durante o Campeonato Europeu de 2010. Eu estava lá com outro dos meus melhores alunos – Anish Giri. Não havia muitos espectadores e enquanto esperava o final da rodada, casualmente falei com o pai do Caruana. Algumas semana depois recebi um convite para ir a Lugano, Suíça. Parece que o Fabiano gostou das sessões. Ele não estava muito confiante no novo treinador então tive que impor minha autoridade. No final, funcionou. Quando começamos só ajudei ele em grandes torneios mas nos últimos dois anos estive com ele em quase todos. AM: Como vocês se prepararam para a copa Sinquefield? Não tivemos muito tempo para preparar porque Fabiano jogou em Dortmund e de lá para as Olimpíadas. Tivemos uma sessão via Skype até ele ficar gripado. Apesar disso, trabalhamos ao longo do ano então não é importante. AM: Qual foi o impacto de jogar em dois grandes torneios antes da Copa Sinquefield? Não é que ajudou nem que atrapalhou – acontece que as novidades e pérolas descobertas nos anos anteriores, sua fantástica forma, o desafio do balde de gelo… tudo isso veio à tona no torneio. Três partidas foram basicamente ganhas na abertura: 1. Contra Vachier-Lagrave na rodada 2 – na Caro-Kann com g4; 2 a ideia de Ca2 contra Aronian na 4ª rodada e 3.contra Topalov na sexta rodada com o poderoso 13.Te2 – que passou despercebido pela equipe de Topalov na preparação, de acordo com o búlgaro. Topalov ficou furioso com isso. O que acontece depois de algo assim é que os adversários começam a ficar com medo de cair em alguma preparação e desviam. Mas quando desviam não ficam muito confortáveis. E o ciclo continua. Pode-se dizer que o “novo” Caruana começou em Dortmund, quando já cometia pouquíssimos erros, demonstrando um xadrez poderoso. Geralmente sou bastante crítico e tento mante-lo alerta, mas ultimamente ele não tem feito nada que se reclame. AM: Como você decide as aberturas a jogar em um torneio tão forte, onde pode surgir qualquer coisa? Depois de muitos anos observando adversários, você consegue intuir o que eles podem e o que eles não podem. Voce repara em tendencias. E claro que eu sigo suas carreiras, e é de se esperar que eles façam o mesmo com seus adversários. chuchelov caruanaAM: Descreva o processo de preparação entre você e o Fabiano. Tem um equívoco comum sobre a preparação no mais alto nível. Não tem que ser longa, tem que ser eficiente, direto ao ponto. E claro que nem sempre é assim, mas esta é a direção correta, menos é mais. Essa sabedoria eu adquiri quando ainda esta nos início, trabalhando com Loek Van Wely. Tem que ser balanceado. Um jogador precisa preservar energia pra partida, não preparar para ela como se fosse tres. AM: Você tem uma rotina para o torneio? Após a rodada tentamos relaxar, talvez sair pra caminhar e conversar sobre a partida, pensando sobre o que viria a seguir, nossas opções para a próxima partida. De manhã trabalhamos entre 2 horas e 2 horas e meia, almoçamos e a rodada começa. O tempo passa rápido nesses eventos. AM: Quando assiste as partidas ao vivo, o que passa pela sua cabeça? Tento manter a distancia e não me envolver, mas não é fácil AM: Em que momento você esteve mais preocupado durante as partidas do Fabiano? Depois que o Fabiano ganhou sua 5ª partida achei que ele pudesse ter um surto de felicidade. Um resultado assim é um pouco fora da realidade. Quando o mesmo se repetiu na segunda metade, percebi que ele tinha se acostumado. AM: Porque Fabiano está passando por cima dos adversários? Eles estão jogando de forma diferente com ele? Não acho. Parece uma perfeita coincidência. AM: Mas precisa de mais que uma coincidência para fazer 7 em 7. Sim. É um resultado impressionante. Quase irreal, eu diria. E uma questão de momentum. Por outro lado, vamos analisar rapidamente o papel dos outros jogadores: Topalov mostrou boa forma nas Olimpíadas, mas aqui começou perdendo as duas primeiras partidas, claramente lutando. Da mesma forma, Vachier-Lagrave vinha jogando com consistencia, mas aqui ele ficou inseguro no começo. Hikaru está muito instável, certamente não era o seu torneio. Magnus conseguiu um score positivo, mas perdeu muitas chances ao longo do caminho. Por outro lado, Fabiano jogou de forma impecável. Então talvez não seja uma coincidencia.

caruana01

Caruana consulta seu treinador

AM: Estariam os adversários do Fabiano afetados pela pressão de buscar o líder? E um pouco de cada. Por um lado estão sob pressão. Por outro eles devem perceber que a performance de Fabiano é fora do normal e considerar que ela vai acabar cedo ou tarde. Eles podem pensar que será neles que a sequencia vai terminar. AM: Fabiano é sempre tão comedido em frente as cameras. Ele está empolgado com a performance? E uma atmosfera diferente quando as cameras não estão por perto. Digamos que nos divertimos. AM: O que podeos esperar do Fabiano? Ele vai jogar em Bilbao depois daqui. Também tem o Grand Prix de Baku, Tashkent e Londres. AM: Muitas pessoas acreditam que Fabiano será o próximo desafiante ao campeonato mundial, especialmente depois desta performance sem precedentes. O que você acha disso? Veremos. Vamos esperar o próximo ciclo do mundial.

* * *

Traduzido livremente Fonte e fotos: ChessBase

Anúncios
Leia mais de Artigos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Observação: HTML é permitido. Seu endereço de e-mail nunca será publicado.

Assinar os comentários

%d blogueiros gostam disto: