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5 de agosto de 2014

Mulheres e Homens no Xadrez – Esmagando estereótipos

por marcelopomar

São todas fracas, todas as mulheres. Elas são estúpidas se comparadas aos homens. Elas não devem jogar xadrez, sabe. São como iniciantes. Elas perdem todas as partidas contra homens. Não há uma jogadora mulher no mundo que eu não possa dar a vantagem de um cavalo e ainda vencer. – Robert James Fischer, 1962, Revista Harper

Por WGM Natalia Pogonina e Peter Jdanov

Xadrez é frequentemente dividido entre masculino e feminino. A classificação é bastante relativa, uma vez que as mulheres podem participar de torneios para os homens, enquanto os homens não podem participar em eventos femininos. Esta discriminação tem sido tema de discussões acaloradas. Então é verdade que os homens são melhores do que as mulheres no xadrez? E, se assim for, quais as razões para isso?

Genes?

O xadrez é um esporte intelectual, a força física não é, nem de longe, o fator-chave. Resistência também não é um fator, porque as mulheres são provavelmente ainda mais resistentes do que os homens.

Alguns dizem que é o nível de testosterona que afeta a competitividade – homens são mais propensos a tentar se sobressair em algo que as mulheres. No entanto, se olharmos para o percentual dos chamados “empates de GMs” entre mulheres e homens, vemos que o espírito de luta das mulheres é definitivamente mais alto. Você pode dizer que é uma exceção à regra, mas ainda duvidamos que seja o alto nível de testosterona o diferencial das mais fortes no xadrez.

Seriam as mulheres menos inteligentes que os homens? De acordo com vários estudos, na média a resposta é “não”. Então qual é o problema?

Razões históricas

As mulheres começaram a jogar xadrez profissionalmente muito depois os homens. Hoje em dia o número de mulheres enxadristas profissionais está crescendo, mas a proporção ainda é incomparável. Comparativamente, há pouquíssimas mulheres no xadrez – o que diminui muito sua chances de entrar na elite mundial de xadrez.

Vera Menchik esteve entre os melhores do mundo no começo do século XX

Vera Menchik esteve entre os melhores do mundo no começo do século XX

Olhe para o top-300 do ranking do xadrez e conte o número de mulheres lá. Se você não deixou ninguém de lado, vai encontrar apenas três. A proporção é de quase 1 para 100 – uma relação “ótima”, não é? Alguns números mais ilustrativos: segundo o site da FIDE, há 20 jogadoras que possuem o título de GM para 1201 GMs do sexo masculino (cerca de 1 para 60), 77 MIs femininas para 2854 masculinos (cerca de 1 a 37), 239 WGMS e 7 mulheres MF para 5400 homens MF (cerca de 1 a 20). Nota: reparou na tendência de queda?

Educação infantil e estereótipos sociais

Outra questão importante é que, a fim de chegar ao topo do xadrez, é preciso estudar com afinco desde a infância. Os pais (que têm uma grande influência na escolha dos hobbies seus filhos) consideram o xadrez como um passatempo estranho para uma menina, e também não gostam muito do fato de sua filha gastar muito tempo com homens adultos ou adolescentes (especialmente quando saem de casa para jogar em torneios).

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Roy Portas (sul da Califórnia, EUA), lembra:

Eu acho que há definitivamente algum viés cultural / sociológico que torna mais difícil para as mulheres se destacar no xadrez. Percebi há alguns anos (depois de ter sido apontado por uma ex-namorada), que eu estava tomando um papel muito mais ativo na educação de xadrez do meu sobrinho do que com a minha sobrinha, apesar do fato de ela estar mais ansiosa para jogar, mais disposta a aprender e parecia levar mais jeito para o jogo. Eu inconscientemente não tinha levado seu interesse em xadrez a sério e fiquei envergonhado quando eu percebi que estava ajudando a perpetuar o mito de que os meninos são melhores jogadores de xadrez.

Michael Ziern (Frankfurt, Alemanha), acrescenta: É difícil convencer os pais a enviar as meninas para torneios, junto aos seus colegas de clube. Os pais muitas vezes têm medo de permitir a sua menina de 10 ou 12 anos de idade a viajar com um grupo de rapazes e homens. Se as meninas jogam menos torneios, elas não melhoram tão rapidamente e perdem o interesse.

Pogonina_natalja_20081119_olympiade_dresdenPara resolver este problema, o meu clube em coopera com clubes de cidades vizinhas para que se tenham grupos de meninas maiores que possam compartilhar quartos em albergues, façam amizades, etc.

Além disso, estudar xadrez seriamente exige investimentos substanciais (treinadores, viagens etc) e é sabido que é impossível ganhar a vida com xadrez a não ser que se esteja no topo. É por isso que os pais desencorajam o interesse de suas filhas no xadrez – qual a razão para perder tanto tempo em uma atividade duvidosa?

Quando Natalia tinha doze anos, ela teve até que se mudar para outra cidade para ter acesso a bom treinamento e financiamento – a vida na Rússia na década de 90 costumava ser difícil para qualquer um, jogadores de xadrez não eram exceção. Então, ela e seu treinador tinham dificuldade em encontrar dinheiro para as viagens de xadrez e tinham que carregar sacos pesados de livros de xadrez com e vender os volumes de modo para compensar as despesas.

Psicologia

Esse fator me parece ser o mais importante. Existe no xadrez o estereótipo de que as mulheres não são páreas para os homens. Isso se baseia em dados estatísticos. É por isso que muitas jogadoras de xadrez são ensinadas desde a infância
que nunca vão jogar no nível dos homens. TV e livros também tentam convencer as meninas de que é irreal. Mas tudo isso é um mito! A primeira mulher a quebrar isso foi a incrível Judit Polgar, a maior jogadora de xadrez de todos os tempos.

Ela e suas duas irmãs mais velhas, GM Susan e MI Sofia, faziam parte de um experimento educativo realizado pelo seu pai László Polgár, em uma tentativa de provar que as crianças podem fazer conquistas excepcionais se treinadas em uma área específica a partir de uma idade muito precoce. “Os gênios não nascem, são criados”, foi a tese de László. Ele e sua esposa Klara educaram suas três filhas em casa, com o xadrez como o assunto específico. No entanto, o xadrez não foi ensinado a exclusão de tudo o mais, como foi o caso de Gata Kamsky. Cada uma delas teve vários diplomas e falam de quatro a oito idiomas. Seu pai também ensinou suas três filhas a língua internacional Esperanto.

polgar

Polgar J – Kasparov G,

Russia vs. O resto do mundo, Moscou 2002

1.e4 e5 2.Nf3 Nc6 3. Bb5 Nf6 4.O-O Nxe4 5.d4 Nd6 6.Bxc6 dxc6 7.dxe5 Nf5 8.Qxd8+ Kxd8 9.Nc3 h6 10.Rd1+ Ke8 11.h3 Be7 12.Ne2 Nh4 13.Nxh4 Bxh4 14.Be3 Bf5 15.Nd4 Bh7 16.g4 Be7 17.Kg2 h5 18.Nf5 Bf8 19.Kf3 Bg6 20.Rd2 hxg4+ 21.hxg4 Rh3+ 22.Kg2 Rh7 23.Kg3 f6 24.Bf4 Bxf5 25.gxf5 fxe5 26.Re1 Bd6 27.Bxe5 Kd7 28. c4 c5 29.Bxd6 cxd6 30.Re6 Rah8 31.Rexd6+ Kc8 32.R2d5 Rh3+ 33.Kg2 Rh2+ 34.Kf3 R2h3+ 35.Ke4 b6 36.Rc6+ Kb8 37.Rd7 Rh2 38.Ke3 Rf8 39.Rcc7 Rxf5 40.Rb7+ Kc8 41.Rdc7+ Kd8 42.Rxg7 Kc8 1-0.

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Prioridades distintas?

E se as mulheres simplesmente não estão interessadas em xadrez? Poderia ser essa uma das atividades que interessa mais aos homens que às mulheres (como jogar jogos de PC, lutar, atirar, xingar e etc?). Há até mesmo uma hipótese engraçada de que o xadrez é para pessoas imaturas e estranhas, por isso as mulheres (que tendem a amadurecer mais rápido do que os homens) não se ocupam de algo tão esquisito.

Robert Tierney (Binghamton NY, EUA):

Acrescentado os meus dois centavos aqui, acho que a questão está formulada errada. “Por que as mulheres jogam xadrez pior do que os homens” é uma questão inadequada, enquadrado em uma área dominada por homens com uma história dominada por homens. Uma vez que todos (aqui) parecem concordar que as mulheres são aprendizes mais rápidas do que os homens, e amadurecem mais rápido do que os homens, talvez elas sejam muito inteligentes para gastar mais tempo em algo que é apenas um jogo, como Morphy declarou várias vezes. Talvez a pergunta deveria ser, são os homens muito estúpidos ou muito imaturos para ficarem obcecados em xadrez? Então, talvez, não tivéssemos este tema sendo repetidamente usado. “O xadrez é um sinal de falta de inteligência” – não seria surpreendente?

Diferentes gostos e prioridades são, provavelmente, parte da resposta, mas eles também estão intimamente ligados com outras razões. Por exemplo, as prioridades são em grande parte afetadas por estereótipos sociais e da criação, por isso, se (teoricamente) nós mudarmos elas (por exemplo, incentivar os meninos a brincarem com bonecas e meninas a estudarem xadrez), poderemos ver um resultado completamente oposto.

Também é importante observar que (não importa quais são seus interesses) a maioria das mulheres tem que dedicar muito tempo à sua família: por exemplo, quando uma criança nasce, elas não têm tempo suficiente para estudar xadrez ou participar de vários torneios de xadrez. Algumas pessoas argumentam que os homens também são distraídos do xadrez por suas responsabilidades como pais, mas é claro que a escala é incomparável.

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Passos a tomar

Última pergunta – o que devemos fazer para tornar o xadrez mais popular entre as meninas?

Executar uma campanha educativa destinada aos pais para ajudá-los a compreender que o xadrez é um grande jogo que desenvolve a mente das pessoas. Esmagar os estereótipos e fornecer informações suficientes sobre os benefícios de estudar xadrez, e os pais incentivarão o interesse de suas filhas no xadrez!

Apresentando xadrez no currículo escolar também pode ser um grande passo no sentido de proporcionar para as meninas a oportunidade de se tornarem boas jogadoras de xadrez.

Outra coisa importante é o patrocínio – xadrez feminino é muito atrativo e emocionante, por isso vale a pena investir nele. Se os prêmios em eventos femininos subirem ao mesmo nível que em eventos masculinos, então, as meninas (e seus pais) terão uma boa motivação financeira para levar o xadrez a sério.

Finalmente, as próprias meninas devem saber que elas são iguais aos homens em termos de talentos de xadrez, devem jogar em torneios masculinos, estudar muito e acreditar em sua força. Se a maioria das mulheres começam a agir dessa maneira, então um dia a quantidade vai levar a qualidade, e a elite mundial de xadrez desfrutará de mais jogadoras.

É essencial lembrar que o céu é o limite e que todos os obstáculos estão em nossa mente…

Sobre os autores:

WGM Natalia Pogonina (nascida em 9 de março de 1985) é uma das melhores jogadoras de xadrez no mundo, membra da equipe de xadrez russa. WGM, três vezes campeã européia (U16, U18 duas vezes), vencedora do prêmio de bronze no Campeonato Mundial (U18) e Campeonato Europeu de Mulheres, vencedora da medalha de ouro nos Primeiros Jogos Internacionais da Mente, co-vencedora do Campeonato do Mundo de Estudantes de 2008, e n º 1 em vários prestigiados torneios internacionais (2006 – Bykova Memorial de 2007 – Rudenko memorial de 2009 – Moscow Open, etc.) Seu Rating FIDE atual é mais de 2500 – uma marca que está associada com o título de GM masculino.

Peter Jdanov (nascido em janeiro, 8, 1986) é um especialista de TI bem sucedido, líder mundial de especialista em debate, top blogger e um jogador de xadrez proficiente. Peter também é o empresário de Natalia Pogonina, o administrador do site oficial Natalia Pogonina e coautor de Natalia do próximo livro “Chess Kamasutra”.

*tradução de Amanda Paul Dull

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